quarta-feira, 25 de abril de 2012

Doutor dos Sentimentos




Abre-se a porta, três passos, um divã e um coração que se expõe. Sentimentos voam através de palavras. Este é o consultório sentimental, a consulta de uma vida que se quer construir. Desespero, lágrimas, dores de corações partidos. Feridas que tardam em sarar.
Tiramos os pensos rápidos que escondem as cicatrizes. Mostramos as marcas da violência do nada. Procuramos em alguém o conforto, uma solução.
Esvaziamos de nós promessas que nunca se cumpriram.
Voltamos a tapar a ferida, levantamo-nos, abrimos a porta e regressamos ao mundo continuando a esconder as marcas de uma alma em sofrimento.
Vivemos aguardando e tentando fechar a ferida. Esperando que de uma vez por todas ela morra, deixe de existir.

terça-feira, 17 de abril de 2012

Depois das Oito às Cinco


Chegamos à hora certa, à hora marcada pelo destino. As nossas chávenas cruzaram um mar de sabores intensos e exóticos. O sabor da hortelã-pimenta…De uma corrente fresca que percorria o corpo e nos guiava por um trilho de sensações.
Vivemos durante um tempo esotérico de cheiros, sabores e conversas gourmet. Éramos seres especiais que levitavam ao encontro de cada sabor.
A caixa de chocolates aberta à nossa frente, oferecia-nos pequenas viagens para o mundo dos sabores. Fomos ao Brasil acompanhados pelo recheio a café, à India com o gengibre… Sabores inesperados em combinações difíceis, tal como nós. Os chocolates personificavam-nos. Assim, era mais fácil de nos entendermos.
O nosso encontro tinha sabor a chocolate e pimenta, a cravo e canela. Era doce, picante e crescia sem pretensões tal como as flores.
Marcávamos sempre encontro depois das oito às cinco…

sábado, 3 de março de 2012

Bolas de Sabão



Flutuam livres pelo ar, mas basta-lhes um toque para que a sua magia desapareça. Olhamos com ternura, sonhamos com elas, damos o conteúdo dos nossos sonhos, mas podemos destruir a sua beleza assim que o decidirmos, porque afinal de contas somos os seus autores.
Existem coisas que nasceram para ser livres, que vivem apenas para pairar à nossa volta.
Por vezes vive uma beleza naquilo que conhecemos com distância, que mantém sempre uma parte inacessível a nós…Talvez seja o seu lado utópico que nos atrai, aquilo que vemos, criamos, mas não o que é na realidade, o seu verdadeiro corpo.
Há uma beleza que chega a ser desmedida no não conhecer. Ultrapassa fronteiras dentro de nós, faz-nos viver com um sorriso, mas só porque não se realizou, não passou ao concreto.
Aparecem-nos situações e pessoas que o seu lugar é mesmo esse, deixar o nosso lado mais criativo viver e beber a essência que o alimenta.
Havemos em algum tempo da nossa vida ser o sonho de alguém e pairar nesse mundo que não pertence à Era do toque. Teremos os sentimentos, convicções, beleza, encanto que nos dão gratuitamente sem pedir em troca a correspondência a essas expectativas.
Quando esta força não for mais necessária estoiramos esta bola de sabão das nossas quimeras.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Sentidos Cruzados


Este caminho longo que nos seduz a cada passo, cruza dentro de si emoções opostas.
Num dia é o nosso “lar doce lar”, noutro empurra-nos para o “inferno” do medo.
Baralham-se os sentidos e deixamos de conseguir identificá-los.
O paladar traz-nos um sabor ao qual a nossa visão encerra os olhos, numa tentativa de afastar um toque que de tão aconchegante nos oferece o medo de ser efémero.
Sentimos o cheiro de algo que nos é familiar, de um corpo, um momento, de um prazer curto e fugaz.
Na esperança de sermos felizes tentamos eternizar momentos. Pequenas peças de um puzzle que seria belo se nos permitissem montá-lo.
Andamos perdidos em torno dos cinco sentidos. De volta daquilo que torna visível os sentimentos.
Cruzamos um olhar que não é um simples olhar, mas sim o dizer algo que já não conseguimos esconder.
Na nossa boca formam-se palavras, para retirar a subjectividade do olhar. Com o mover dos lábios e o som, deixamos escapar o carinho e tornámos alguém mais forte.
Quanto aos braços damos-lhe a forma de um abraço. Um abraço que protege de tudo o que de mal poderia acontecer.
Os ouvidos deixamos que sejam embalados por aquela voz que nos faz sorrir, que acalma o corpo perdido.
O cheiro, esse… Faz-nos sonhar. Estimula a nossa imaginação, transporta-nos para um lugar que já nos foi permitido viver.
Misturamos todas estas sensações. Vivemo-las diariamente sem nos darmos conta da sua importância e de que podemos estar a mudar a vida de alguém, ou tão simplesmente a nossa.
A verdade é que por muito que queiramos não podemos sair impunes às coisas boas e más. Só nos resta escolher o caminho. Não fugir dele. Não ter medo do que sentimos, de nos darmos. Às vezes só nos falta mesmo entender que estamos no caminho certo e pararmos de fingir que não o vemos, não o sentimos.
Nem sempre os olhos do mundo são os mais claros. Às vezes precisamos dos olhos do coração para nos vermos mais além… A linha do nosso horizonte somos nós que a construímos.

sábado, 10 de dezembro de 2011

Correntes de um Medo



Vivemos à procura do destino certo para nós. Tentamos a todo o custo evitar um caminho com percalços ou perder o comboio.
Por vezes, fugimos com medo do que sentimos, com medo de vir a sentir, com medo de nos magoarmos novamente. Vestimos as nossas armaduras de fuga e deixamos a mala na estação por receio de não estarmos a fazer a escolha certa. Deixamos a nossa bagagem para que um dia possamos voltar atrás e entrar no comboio que nos levará ao destino que um dia abandonamos por medo.
Vivemos presos à parte humana do racionalismo, do esconder, do pensar que ser forte é evitar.
Os receios que deixamos acorrentados a nós de um passado levam-nos a brincar ao gato e ao rato num novo caminho. Tentamos a todo o custo preservar o nosso coração para que ele não leve com mais uma flecha envenenada e nos atire ao chão.
É sempre mais fácil o escondermo-nos de nós próprios e dos sentimentos que possam estar a nascer em nós.
Evitar parece a curto prazo o caminho com menos custos emocionais. A verdade é que ao fugirmos podemos estar a deixar escapar-nos por entre as mãos a oportunidade de sermos felizes.
Ensaiamos tantos cenários de guerra na nossa cabeça, quando na realidade as coisas não nos são assim apresentadas. Temos consciência disso, mas criar um cenário catastrófico é-nos sempre mais fácil, do que baixarmos as defesas e deixarmo-nos levar pelo bom da vida, dos sentimentos e das pessoas.
É preciso abrir o coração ao “risco” para podermos saborear o doce momento das emoções partilhadas e da força dos sentimentos.
Arriscar por vezes é a escolha mais segura e sensata que podemos tomar.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Direcções Ocultas



Apenas o presente tem duas direcções que podemos escolher. O passado e o futuro apresentam-nos um caminho de sentido único e obrigatório.
A liberdade da escolha é no aqui e no agora. Está dentro de nós.
As escolhas gritam dentro do nosso e coração e da nossa cabeça para serem anunciadas.
Vivemos presos a dois tempos. Um que já foi nosso e outro que não saberemos se poderá vir a ser nosso.
Esquecemo-nos de viver e sentir o que está diante dos nossos olhos e nos toca no dia-a-dia.
Andamos perdidos num mapa que só indica dois caminhos com histórias ou que foram ocultadas ou que ainda são ocultas para nós.
Certo é agarrar a bússola e procurar o norte do presente. 

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Batalha


 
Entramos na arena, fortes e destemidos. Erguemos a cabeça e fixamos o olhar no nosso “rival”. Avançamos lentamente passo a passo, num ritmo de confiança que poucos conhecem. Decidimos ser corajosos e travar a batalha do não perder, do não abrir mão do nosso futuro.
Sabemos que a qualquer momento a guilhotina pode cair, mas isso não nos pára. As pernas trémulas, as mãos suadas, o coração descompassado e acelerado, não se mostram a ninguém. Decidimos conscientemente que o pior já nos foi apresentado e que este último sopro de vida pode ser a nossa salvação do voltar ao lugar onde fomos felizes, ou o impulso para uma nova vida.
Podem espetar-nos os ferros da corrida que mesmo assim teremos força para nos reerguermos. No fim, apesar do resultado sairemos sempre vitoriosos.
Vencer é ter coragem para enfrentar!